3 – A PERCEPÇÃO DO DEUS CRIADOR NA HISTÓRIA ANTIGA

Após o Dilúvio, no início de um mundo novo, os depositários da revelação de Deus foram Noé, sua família, e seus descendentes.

Com a dispersão dos povos, e seu gradativo afastamento do tronco comum inicial, a verdade original transmitida por tradição oral foi sendo degradada e deturpada, apresentada na forma de tradições e lendas, particularmente relacionadas com os dois grandes eventos universais– a Criação e o Dilúvio. Em relação ao primeiro desses eventos, pesquisando-se as crenças dos povos mais antigos sobre os quais existem registros históricos escritos, não é difícil concluir que todos eles, sem exceção, mantinham a crença em uma divindade suprema – o Deus Criador!

Com este pano de fundo, pretendo agora fazer um pequeno resumo histórico do conflito entre a posição que defende o Planejamento e um Supremo Ser Criador, e a posição que defende simplesmente a atuação do Acaso para explicar a natureza que nos cerca e na qual nos inserimos. Para isso, recorrerei com freqüência a citações do excelente trabalho de pesquisa de Bill Cooper (Membro do Conselho do Creation Science Movement, a mais antiga entidade criacionista moderna, sediada na Inglaterra) intitulado “After the Flood”, traduzido por mim para o Português e publicado pela Sociedade Criacionista Brasileira. As citações que serão feitas, constantes desse trabalho, serão indicadas na Bibliografia

 

Descrição sucinta do conteúdo do livro “Depois do Dilúvio”, constante

Do “Índice das Publicações da SCB” editado como

Apêndice da Revista Criacionista nº 86

 

A título de observação preliminar, parece que o pensamento popular hoje jamais tem levado em conta a possibilidade de que outros povos, além dos Hebreus, realmente tivessem tido conhecimento do Deus Criador, Seu poder e atributos, bem como que essa percepção pudesse ter existido e florescido, durante séculos, sem qualquer vínculo com a revelação expressa nas Escrituras.

Assim, foi com um misto de surpresa e alegria que descobri a excelente fundamentação apresentada por Bill Cooper exatamente sobre o fato de que o conhecimento e a apreciação profundos de um Deus Criador eterno e todo-poderoso, a Sua paternidade de toda a raça humana, e os Seus atributos infinitos, encontram-se nos escritos de vários historiadores no mundo antigo, bem como nos ensinamentos dos mais antigos filósofos.

Tão profundos eram a concepção e o conhecimento desse Deus entre certos povos pagãos do mundo antigo, e em particular no mundo greco-romano, que até mesmo foi então iniciada a controvérsia (que deveria manter-se acesa durante muitos séculos) entre os que propagavam e preservavam aquele conhecimento de Deus como Criador, e os que procuravam destruí-lo, atribuindo a criação do Universo a forças puramente naturais.

Por exemplo, dos escritos do taoista Lao-tzé, que floresceram na China do sexto século a.C., podemos extrair a seguinte afirmação profunda relativa à existência e aos atributos de Deus:

Antes do tempo, e durante todo o tempo, tem existido um Ser com existência própria, eterno, infinito, completo, onipresente. … Para além deste Ser, antes do início, não havia nada.” (1).

 

Lao-tze

 

Dificilmente poderá ser negado que esse mesmo conceito de um Deus Criador realmente tivesse existido com igual profundidade em muitas outras civilizações antigas, por exemplo no Egito, conforme testifica o seguinte texto antigo de Hierápolis:

Eu sou o criador de tudo que existe … que surgiu a partir de minha boca. Os céus e a terra não existiam, nem tinha sido criada a erva do campo nem as coisas que rastejam. Eu as fiz surgir do abismo primordial, a partir de um estado de não existência …”. (2).

Entre os antigos gregos, temos na “Teogonia” de Hesíodo (oitavo século a.C.) um relato da criação do mundo que mantém semelhanças notavelmente próximas e irretorquíveis com o relato de Gênesis:

Antes de tudo veio à existência o Vazio … em seguida, a Terra. … Do Vazio veio a escuridão … e da Noite veio a Luz e o Dia …”. (3)

Hesíodo

 

Xenófanes, que viveu cerca de dois séculos depois de Hesíodo, mantinha uma visão ainda mais sublime do Criador:

Homero e Hesíodo deram aos deuses todos os atributos que entre os homens são vergonhosos e censuráveis – roubo, adultério e mentira. … Porém, existe um Deus, maior entre os deuses e os homens, não semelhante aos mortais quer em forma quer em pensamento … que vê como um todo, pensa como um todo. … Ele permanece sempre no mesmo estado, sem qualquer mudança. … E longe de se fatigar, governa tudo com sua mente”. (4)

 

Xenófanes

 

O conceito desse Deus Criador inefável, por exemplo, permeou o pensamento de Platão, que procurou substituir aqueles conceitos de Hesíodo sobre a Criação por outros mais razoáveis, sem dúvida com base em conceitos filosóficos bem anteriores aos de Hesíodo, certamente bem mais profundos:

Ressaltemos, portanto, a razão pela qual o grande modelador deste Universo dinâmico realmente o modelou. Ele era bom, e o que é bom não possui em si qualquer partícula de cobiça; sendo, portanto, isento de cobiça, ele desejava que todas as coisas fossem tão semelhantes a ele quanto possível. É este um princípio válido para a origem de um mundo dinâmico, tanto quanto podemos descobrir a partir da sabedoria humana …”. (5)

texto este no qual se pode perceber um eco da declaração de Gênesis: “E viu Deus que tudo era muito bom”.

Por outro lado, através de Plutarco, ficamos conhecendo a proposição de Anaximandro, de que “… originalmente, os seres humanos nasceram de animais de diferentes espécies …” (6), defendendo, assim, ser “natural” o principio criativo que teria trazido o Universo à existência.

 

Anaximandro

 

Platão, porém, falando dos materialistas – como Anaximandro – como se fossem uma nova linhagem pouco prometedora de pensadores que acabavam de ter entrado em cena, declara:

Algumas pessoas, acredito, explicam todas as coisas que vieram a existir, todas as coisas que hoje estão vindo a existir, e todas as coisas que virão a existir no futuro, atribuindo-as à natureza, a coincidências ou ao acaso” (7).

O modelo de Platão, ao contrário, era um conceito totalmente mais elevado. Para ele, o Criador fez o caos tornar-se ordem simplesmente porque fazer isso era inerente à Sua boa natureza e ao Seu bom desejo. Deus preferia a ordem ao caos, e para assegurar a manutenção dessa ordem, tudo o que Ele criou foi feito de conformidade com uma configuração eterna e perfeita, o que Platão exprimiu em sua justamente famosa “Teoria das Formas”.

 

Platão

 

Epicuro defendeu a posição contrária, em torno do fim do quarto século a.C., com uma cosmologia cujos efeitos deveriam reverberar por todo o mundo romano vindouro, durante muitos séculos. E, de fato, até hoje ainda ela sobrevive nos elementos de várias filosofias modernas. Em particular, o atomista Epicuro argumentava que era insuficiente advogar a criação divina do Universo, como fez Platão, “a partir da hipótese de um cosmo bem ordenado, simplesmente porque o cosmo, a seu ver, não era bem ordenado(8) – o cosmo teria se desenvolvido através de uma longa série de acidentes, talvez infinita, a partir de colisões aleatórias de átomos.

 

Epicuro

 

Longe de eliminar o Criacionismo, o Epicurismo simplesmente serviu para reagrupar as fileiras criacionistas no sentido de uma melhor definição de seus pontos de vista, tendo assim se levantado a Escola Estóica de pensamento para enfrentar o desafio do materialismo epicurista.

O Estoicismo foi fundado por Zenão em torno de 308 a.C., com uma concepção do Criador muito mais profunda do que até então havia prevalecido no pensamento grego, seja o de Hesíodo, Xenófanes ou mesmo Platão.

Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não poderiam ser criados pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. … Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse, no mundo todo, maior do que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus”. (9).

 

Zenão

 

Um estóico posterior, Cícero, foi quem deu a esse conceito talvez sua mais elevada expressão nos tempos pré-cristãos, e pelo menos algumas de suas palavras merecem ser citadas:

Ao observarmos um gnomon (relógio de sol) ou uma clepsidra (relógio de água), vemos que eles indicam o tempo de maneira propositada, e não por acaso. Como podemos imaginar, então, que o Universo como um todo seja destituído de propósito e inteligência, ao abarcar tudo, incluindo esses próprios artefatos e seus artífices? Nosso amigo Possidônio, como sabemos, recentemente elaborou um globo que, em seu movimento de rotação, mostra o movimento do Sol, das estrelas e dos planetas, dia e noite, exatamente como eles aparecem no céu. Ora, se alguém tomasse esse globo e o mostrasse aos habitantes da Bretanha ou da Cítia, algum desses bárbaros deixaria de perceber que ele era o produto de uma inteligência consciente?” (10)

 

Cícero

 

Gnomon Clepsidra

 

Com essas palavras maravilhosamente simples (posteriormente, muitos séculos após, parafraseadas pelo “bárbaro” bretão William Paley…) Cícero proclama a idéia que ainda hoje é a mais difícil de ser refutada pelos materialistas, pois é quase impossível explicar de maneira convincente, por exemplo, a indescritível complexidade dos organismos vivos, ou simplesmente de partes suas, como sendo resultado do acaso cego, ou de eventos aleatórios.

Cícero simplesmente não podia concordar com o ponto de vista epicurista atomista de Lucrécio:

Nos céus nada há de acidental, nada arbitrário, nada fora de ordem, nada errático. Tudo é ordem, verdade, razão, constância. … Não posso compreender essa regularidade nas estrelas, essa harmonia do tempo e do movimento em suas imensas órbitas durante toda a eternidade, a não ser como a expressão de razão, mente e propósito. … O seu movimento constante e eterno, maravilhoso e misterioso em sua regularidade, declara o poder inerente de uma inteligência divina. Se algum homem não pode sentir o poder de Deus ao olhar para as estrelas, então duvido que seja capaz de qualquer outro sentimento também (11).

Não é realmente surpreendente alguém pôr-se a acreditar que um número imenso de partículas sólidas e separadas, pudesse, mediante colisões aleatórias, e movidas tão somente pela força de seu próprio peso, trazer à existência um mundo tão belo e maravilhoso? Se alguém pensa que isso é possível, não vejo porque também não pudesse pensar que, se um número infinito de letras, dentre as vinte-e-uma do alfabeto, feitas de ouro ou do que quer que seja, fosse misturado e lançado no chão, pudessem elas cair de tal maneira que formassem, por exemplo, o texto completo dos “Anais” de Ênio. De fato, duvido que o acaso permitisse que as letras formassem sequer um único verso dos “Anais”! (12).

 

Lucrécio

 

Não deixa de ser impressionante como que o pensamento estóico, manifesto nas declarações de Cícero (nos albores da “plenitude dos tempos” preconizada em Gálatas 4:4), apontava para um Ser Supremo, um Criador cujos propósitos se manifestassem no planejamento das coisas criadas. Assim, cerca de duas décadas antes de sobrevirem os acontecimentos profetizados na Escritura a respeito da vinda do Messias em cumprimento ao Plano da Salvação, já o ambiente da Filosofia no Império Romano era propicio para receber a semente do Evangelho que seria lançada pouco depois pelos Apóstolos.

Fica claro, em Atos 17:18 que filósofos estóicos e epicuristas, em outras palavras, os criacionistas e evolucionistas da época, interessaram-se em discutir com Paulo o assunto do planejamento e acaso que envolvia “o Deus que fez o mundo e tudo que nele existe” (v.24). Embora a questão da restauração do mundo caído, com a ressurreição dos mortos, os tivesse desinteressado, vemos, entretanto, no versículo 34, que certamente alguns estóicos tivessem sido despertados para este último assunto, crendo e agregando-se aos primeiros conversos ao Cristianismo.

 

Vista atual da “Colina de Marte” (Areópago) em Atenas