4 – A PERCEPÇÃO DO DEUS CRIADOR DESDE O INÍCIO DO CRISTIANISMO

No início do Cristianismo, os apóstolos e discípulos empenharam-se de corpo e alma na pregação das “novas de grande alegria”, que incluíam a lembrança de aspectos específicos do grande Plano da Redenção a serem proclamados a “todas as tribos, nações e línguas” incluindo principalmente o testemunho da morte e ressurreição de Cristo, o Messias tão esperado, mas rejeitado pelas classes dominantes judaicas.

Não faria sentido, entretanto, essa pregação, sem a devida conexão com a lembrança da criação de um mundo perfeito que se afastara do Criador em virtude de sua desobediência, o que ocasionou a entrada do pecado nesse mundo, com a degradação e a morte ocorridas em conseqüência dessa separação de Deus, desvirtuando os propósitos originais do Criador. Nesse contexto, a pregação da morte expiatória do Messias e a promessa da restauração de todas as coisas, demonstrando o indescritível amor de Deus para com as Suas criaturas, entrelaçaram-se com os Seus propósitos como Criador, a serem cumpridos no grandioso Plano da Redenção centralizado agora na ressurreição de Cristo.

Assim, a pregação da mensagem sobre o Deus Criador é encontrada no texto bíblico em diferentes ocasiões específicas, culminando enfaticamente com a pregação do “Evangelho Eterno” mencionada profeticamente para os dias finais da história deste mundo. As passagens seguintes resumem como foi pregada no início do Cristianismo a mensagem sobre o Deus Criador, em algumas ocasiões específicas:

  • S. João 1:1-3 – No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e sem Ele nada do que foi feito se fez.
  • Atos 4:24 – Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus, e disseram: Tu, soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há.
  • Atos 14:15 – … Nós vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo que neles há.
  • Atos 17:23-24 e 26 – … Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente Aquele que eu vos anuncio: o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Ele Senhor do céu e da terra …de um fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra.
  • Romanos 1:29 – Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas.
  • Efésios 3:8-9 – A mim …me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas.
  • Colossenses 1:15-16 – Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois, nEle, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis. … Tudo foi criado por meio dEle e para Ele.
  • Hebreus 11:3 – Pela fé, entendemos que foi o Universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.

A pregação apostólica continuou ganhando pessoas que nela creram e foram sendo agregadas à Igreja. A crença nessa nova fé cristã, paralelamente à crença no Deus Criador que deveria restaurar todas as coisas, aos poucos foi sendo expressa em breves palavras que passaram a constituir uma declaração de fé, usualmente uma forma de explicitar, por ocasião do batismo, a nova fé que estava sendo abraçada.

Assim, vários trechos hoje incorporados no texto do Novo Testamento, apresentam verdadeiras declarações de fé fragmentárias que aparentemente teriam sido posteriormente coligidas e codificadas, vindo a formar o chamado “Credo Apostólico”. Um exemplo dessas declarações fragmentárias é o texto final da Primeira Epístola de Paulo a Timóteo no capítulo 3, verso 16:

  • Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória”.

Semelhantemente, o texto mais amplo que se encontra no capítulo 4 da Primeira Epístola de Pedro, iniciado no verso 16 do capítulo 3 e estendido até o verso 6 do capítulo 4, contém os elementos básicos de uma dessas antigas declarações de fé que poderiam ter dado origem ao que posteriormente foi chamado de “Credo Apostólico”. Dentre eles podem ser destacados os seguintes:

  • Morte de Cristo (3:18) – “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados…” .

  • Ressurreição (3:22) – “O qual, depois de ir para o céu …”.

  • À direita de Deus (3:22) – “Está à destra de Deus”.

  • Juízo dos vivos e dos mortos (4:5) – “Aquele que é competente para julgar vivos e mortos

Todos os Credos incorporados ao Cristianismo primitivo (Credo Niceno, Credo Atanasiano e outros), cujas declarações permanecem até hoje nas Igrejas Cristãs (Católica, Ortodoxa, Reformadas, etc.) enfatizam logo de início a crença no Deus Criador com as palavras “Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador dos céus e da terra”, testemunhando que a percepção do Deus Criador sempre continuou central no Cristianismo.

É digno de nota que, após a crença no Deus Criador, passa a ser ressaltada nos Credos do Cristianismo a crença no Filho Unigênito de Deus, que veio ao mundo para salvar os que se haviam perdido. A pregação bíblica, assim, está firmada sobre os dois grandes pilares inamovíveis e interdependentes – a Criação e a Redenção.

 

À esquerda – Credo de Niceia (Ícone Ortodoxo Oriental retratando Constantino, ao centro, junto aos Pais do Primeiro Concílio de Nicéia – 325 A.D.)

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À direita – Primeiro Concílio de Niceia (Ícone Ortodoxo Oriental representando o Primeiro Concílio de Niceia – 325 A.D.)

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